Estudo mostra que tecnologias digitais podem elevar a eficiência no campo e ampliar impactos econômicos na indústria brasileira
transformação digital da agricultura pode produzir impactos econômicos que ultrapassam os limites das propriedades rurais e alcançam diferentes etapas das cadeias produtivas. É o que aponta um estudo desenvolvido no âmbito do Semear Digital, que analisou como ganhos de eficiência na produção agropecuária podem se distribuir pela cadeia brasileira de biocombustíveis.
O trabalho, publicado na Chemical Engineering Transactions, reúne pesquisadores da Embrapa Agricultura Digital, Embrapa Sede, Fundação Getulio Vargas (FGV), Centro Universitário de Viçosa (Univiçosa) e Universidade Purdue, dos Estados Unidos.
A análise ganha relevância diante das perspectivas de crescimento do setor. Projeções consideradas pelos pesquisadores indicam aumento de aproximadamente 39% na demanda brasileira por biocombustíveis até 2035, movimento associado à expansão do etanol de cana e milho, do biodiesel e dos combustíveis sustentáveis de aviação.
A pesquisa buscou avaliar não somente o crescimento potencial da produção, mas também seus desdobramentos sobre geração de riqueza, salários e empregos em diferentes regiões do País. Outro objetivo foi entender como ganhos de eficiência proporcionados pela digitalização da agricultura poderiam modificar esses resultados.
Efeito multiplicador na economia
Para mensurar essas relações, os pesquisadores desenvolveram uma matriz inter-regional de insumo-produto com dados de 2022. O modelo contempla 38 setores econômicos distribuídos por 11 regiões brasileiras e permite acompanhar como alterações em determinada atividade repercutem sobre fornecedores, indústria, serviços e outros segmentos.
O estudo calculou um multiplicador médio de produção de 2,35 para o setor de biocombustíveis. Dessa forma, um acréscimo de US$ 1 bilhão na demanda final poderia estar associado a US$ 2,35 bilhões em produção, considerando os impactos diretos e indiretos sobre a economia.
Ao simular uma expansão de 38,8% na demanda por biocombustíveis até 2035, o modelo apontou potencial incremento de US$ 13,79 bilhões na produção nacional, além de US$ 4,32 bilhões em valor adicionado, US$ 1,98 bilhão em salários e aproximadamente 165 mil empregos.
Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que os resultados não representam uma previsão para 2035. Os números são estimativas construídas a partir da estrutura econômica utilizada pelo modelo e servem para dimensionar os possíveis efeitos da expansão do setor.
Impactos variam entre regiões
A pesquisa também mostra que os benefícios econômicos podem variar de acordo com a estrutura produtiva de cada território. São Paulo e Mato Grosso foram utilizados para demonstrar essas diferenças.
Em São Paulo, importante produtor de etanol de cana, cada US$ 1 bilhão adicional de demanda por biocombustíveis poderia movimentar US$ 2,38 bilhões em produção. Em Mato Grosso, que se destaca na soja e avança na produção de etanol de milho, o impacto estimado seria de US$ 2,09 bilhões.
A diferença também aparece na geração de valor adicionado: cerca de US$ 740 milhões em São Paulo e US$ 620 milhões em Mato Grosso para cada US$ 1 bilhão de demanda adicional.
Os resultados indicam que a capacidade de distribuir os ganhos depende não apenas do volume produzido, mas também da integração entre agricultura, fornecedores, indústria e serviços existentes em cada região.
Digitalização amplia eficiência
É justamente nessa integração que tecnologias digitais podem exercer um papel estratégico. Agricultura de precisão, sistemas de gestão e outras soluções capazes de otimizar o uso de fertilizantes, defensivos, combustíveis e mão de obra podem elevar a eficiência na produção de matérias-primas como cana-de-açúcar, milho e soja.
Esses ganhos também podem chegar ao processamento industrial. Matérias-primas produzidas com maior eficiência e qualidade, por exemplo, podem reduzir custos e otimizar operações nas etapas seguintes.
Para avaliar esse potencial, os pesquisadores trabalharam com cenários exploratórios de ganhos de até 30% na eficiência da produção agrícola e de até 10% ao longo da cadeia. Os percentuais não correspondem ao desempenho esperado de uma tecnologia específica, mas permitem analisar possíveis efeitos da digitalização em maior escala.
No cenário mais elevado, combinando ganho de 30% na eficiência operacional agrícola e 10% nos demais elos, o modelo indicou crescimento aproximado de 3,4% no consumo intermediário agregado da economia, equivalente a cerca de US$ 50,5 bilhões.
A distribuição dos resultados também se torna mais ampla quando a eficiência alcança diferentes etapas. Em um dos cenários avaliados, 57% dos efeitos ficaram concentrados na agricultura, enquanto 40% chegaram à indústria e 3% aos serviços.
Integração pode potencializar resultados
Os resultados reforçam a importância de avaliar a transformação digital como um processo que envolve toda a cadeia, e não somente a operação dentro das propriedades.
Para empresas industriais, o avanço dessas tecnologias pode representar maior previsibilidade no fornecimento, eficiência operacional e melhor aproveitamento das matérias-primas. Ao mesmo tempo, amplia a relevância da integração de dados e processos entre produtores, fornecedores, processadores e demais participantes da cadeia.
Nesse contexto, o estudo indica que o potencial econômico da agricultura digital tende a crescer quando as tecnologias são adotadas de maneira coordenada. A digitalização deixa, assim, de ser apenas uma ferramenta de produtividade no campo para assumir um papel mais amplo na competitividade e na geração de valor ao longo das cadeias agroindustriais.

