Estudo identifica ação de microrganismos contra patógenos de solo e diferenças entre testes laboratoriais e em plantas de soja.
Microrganismos presentes em produtos agrícolas já disponíveis comercialmente demonstraram potencial para auxiliar no controle biológico de patógenos associados à cultura da soja. A conclusão faz parte de uma pesquisa conduzida na Alemanha e publicada na revista científica Scientific Reports, que investigou o desempenho de diferentes cepas de Trichoderma, Bacillus e Pseudomonas.
O trabalho avaliou dez produtos microbianos comerciais frente a quatro importantes patógenos de solo: Rhizoctonia solani, Fusarium oxysporum, Sclerotinia sclerotiorum e Diaporthe longicolla. A proposta dos pesquisadores foi analisar tecnologias já disponíveis no mercado, buscando identificar alternativas com potencial de aplicação mais imediata nos sistemas de produção de soja.
Nos ensaios realizados em laboratório, as cepas de Trichoderma apresentaram o desempenho mais consistente. Os microrganismos desse gênero reduziram em pelo menos 59% o crescimento dos quatro fungos avaliados. Entre as bactérias, Bacillus amyloliquefaciens e Bacillus velezensis se destacaram, embora o desempenho tenha variado conforme o patógeno.
Outro ponto investigado foi a produção de compostos orgânicos voláteis (VOCs) pelas bactérias. Os testes mostraram atividade inibitória contra todos os fungos analisados, com respostas particularmente elevadas para S. sclerotiorum, cujo crescimento micelial foi reduzido entre 98,6% e 100% nos ensaios realizados. Os pesquisadores também identificaram atividade de enzimas como quitinase, celulase e protease nas três cepas de Bacillus, mecanismos associados à ação antagonista sobre fungos.
Resultados em plantas mostram desempenho mais variável
Após os testes laboratoriais, os pesquisadores avaliaram os candidatos mais promissores em plantas de soja cultivadas sob condições controladas e submetidas à pressão de R. solani. Os tratamentos microbianos não conseguiram recuperar significativamente a germinação e o crescimento das plantas afetadas pelo patógeno.
Apesar disso, determinados tratamentos apresentaram efeitos relevantes sobre a intensidade dos sintomas. Trichoderma harzianum T50 e a combinação de T. harzianum com Pseudomonas fluorescens aumentaram significativamente a proporção de plantas sem sintomas e reduziram a ocorrência de infecções mais severas.
A diferença entre os resultados obtidos em laboratório e nas plantas é um dos principais pontos destacados pelos autores. Segundo o estudo, fatores como competição entre microrganismos no solo, características físicas e químicas do ambiente e dispersão dos compostos produzidos pelas bactérias podem limitar o desempenho observado em condições mais complexas.
A pesquisa também avaliou a compatibilidade dos microrganismos com Bradyrhizobium japonicum, bactéria utilizada na inoculação da soja para favorecer a fixação biológica de nitrogênio. A maioria dos antagonistas não interferiu no crescimento da bactéria, na germinação das sementes, no desenvolvimento das plantas ou na formação de nódulos radiculares.
Aplicação no campo ainda precisa ser validada
Para os pesquisadores, os resultados reforçam o potencial de cepas comerciais de Trichoderma e bactérias antagonistas como ferramentas de biocontrole, mas também mostram que bons resultados obtidos in vitro não necessariamente se traduzem no mesmo nível de eficácia em plantas.
Entre os próximos passos apontados estão o aprimoramento das estratégias de aplicação, incluindo revestimento de sementes, tratamentos combinados de sementes e solo e ajustes nas doses. O estudo também indica a necessidade de tecnologias avançadas de formulação e de ensaios de campo em diferentes localidades.
Os autores ressaltam, portanto, que os produtos avaliados apresentam potencial biológico, mas sua aplicação prática na soja ainda precisa ser confirmada em condições de campo antes da definição de recomendações mais amplas para os produtores.

