Novas tecnologias ampliam a inovação em biológicos, enquanto desempenho, regulação e consolidação ganham importância no setor.
A indústria de biológicos agrícolas atravessa uma nova etapa de desenvolvimento, marcada pela diversificação tecnológica e por exigências crescentes de desempenho, regulamentação e acesso ao mercado. Um levantamento publicado pela AgroPages em 18 de agosto de 2026 reúne movimentos recentes que vão de novas combinações entre ativos químicos e biológicos a tecnologias voltadas à preparação das plantas para estresses ambientais.
Entre as novidades está o Flexum, da Certis Belchim, formulação patenteada que combina o ingrediente ativo químico flonicamida ao componente biológico D-limoneno. Desenvolvido para o controle de pragas sugadoras, como moscas-brancas, psilídeos, pulgões-lanígeros, cochonilhas e outros insetos, o produto exemplifica uma estratégia que aproxima ferramentas químicas e biológicas em uma mesma solução.
Outra frente de desenvolvimento concentra-se na capacidade de preparar as culturas antes da ocorrência de condições adversas. A Veganic desenvolveu a tecnologia NeoPrime, baseada na interpretação de sinais moleculares utilizados pelas plantas em suas respostas ao ambiente. A plataforma dá origem aos chamados Plant Primers, destinados a ativar previamente mecanismos fisiológicos relacionados à resposta ao estresse.
No Brasil, a New Sun Crop Science apresentou em Campinas a linha ClimaBio, direcionada ao manejo de estresses climáticos, como seca e temperaturas elevadas. A solução reúne coronatina, brassinolídeo natural e seis bioestimulantes funcionais. Em um dos ensaios apresentados, parcelas tratadas com coronatina registraram produtividade 5,6 sacas por hectare superior ao controle após período prolongado de seca.
RNA e microalgas ampliam possibilidades
Nos Estados Unidos, a Silvec Biologics obteve registro comercial da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) para uma tecnologia de entrega de RNA direcionada ao citrus greening. A abordagem utiliza uma versão naturalmente não transmissível do vírus da tristeza dos citros para induzir a produção de um peptídeo antimicrobiano pelas próprias plantas, sem recorrer à modificação genética.
Outra linha de pesquisa vem sendo desenvolvida no Brasil. Pesquisadores da Universidade de Passo Fundo utilizaram ruptura celular por ultrassom para extrair compostos bioativos de Spirulina platensis, incluindo aminoácidos e fitormônios, posteriormente empregados no tratamento de sementes de soja, trigo e aveia.
Nos experimentos relatados, o tratamento proporcionou aumentos de até 12% na altura das plantas e de até 32% na massa seca da parte aérea. Na soja, a formação de nódulos aumentou em até 50%. Os resultados indicam potencial para incorporar extratos de microalgas aos protocolos convencionais de tratamento de sementes.
Formulação ganha importância nos biológicos
À medida que o mercado amadurece, a capacidade de transformar ativos biológicos em produtos estáveis e consistentes em condições reais de campo também ganha relevância.
A Croda aponta a ciência de formulações como um dos fatores determinantes para a próxima geração de biológicos agrícolas. O desafio envolve tanto sistemas contendo microrganismos vivos quanto bioativos mais definidos, exigindo tecnologias capazes de preservar viabilidade, estabilidade e desempenho durante armazenamento, aplicação e uso no campo.
Essa evolução acompanha uma mudança nos critérios de avaliação do setor. Além da descoberta de novos microrganismos ou compostos, empresas passam a enfrentar maior pressão para demonstrar eficácia agronômica consistente, gerar dados locais e desenvolver produtos compatíveis com os sistemas de produção existentes.
Regulação influencia expansão internacional
A expansão dos biopesticidas, bioestimulantes e biofertilizantes também evidencia diferenças regulatórias entre mercados. Estados Unidos, Canadá, União Europeia e Reino Unido adotam critérios distintos de classificação, registro, alegações e exigências de dados, tornando a estratégia regulatória uma etapa cada vez mais integrada ao desenvolvimento de novos produtos.
China e União Europeia exemplificam essas diferenças. Enquanto o mercado chinês reúne mais de 18 mil produtos classificados como bioestimulantes no levantamento apresentado, ainda sem uma regulamentação específica para a categoria, a União Europeia estabelece definições e caminhos regulatórios por meio do Regulamento de Produtos Fertilizantes.
Mercado caminha para maior consolidação
Além da inovação tecnológica, o setor registra movimentos de distribuição e aquisição. A Biocontrol Technologies firmou acordo com a Wilbur-Ellis Agribusiness para ampliar a comercialização nos Estados Unidos do biofungicida T34 Biocontrol, baseado na cepa T34 de Trichoderma asperellum.
Já a Sumitomo Chemical Italia adquiriu 100% da Pyragro, operação da COPYR dedicada a produtos à base de piretrinas naturais. A transação incorpora ao grupo registros de proteção de cultivos na Itália e em outros mercados da Europa, Oriente Médio e África.
Os movimentos refletem uma indústria que passa da expansão acelerada para uma fase de maior seleção competitiva. Tecnologias diferenciadas, comprovação de desempenho, propriedade intelectual, registros, capacidade de formulação e acesso a canais de distribuição tendem a ganhar peso na definição das empresas e soluções que conseguirão ampliar participação no mercado de biológicos agrícolas.

