Concurso da BSCA seleciona canéforas brasileiros para avaliação internacional e busca ampliar seu reconhecimento entre os cafés especiais.
Os cafés canéforas, grupo que reúne variedades como robusta e conilon, avançam em uma categoria historicamente associada ao arábica. A Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) conduz uma iniciativa para identificar lotes nacionais com qualidade suficiente para alcançar a classificação de café especial e ampliar sua presença nos mercados brasileiro e internacional.
O movimento ocorre após anos de evolução no cultivo e no beneficiamento dos canéforas. Produtores de estados como Espírito Santo, Rondônia e Bahia vêm adotando práticas voltadas à melhoria da qualidade, incluindo mudanças na nutrição das lavouras, mecanização e aperfeiçoamento de processos de secagem e armazenamento.
Segundo Vinicius Estrela, diretor executivo da BSCA, a associação passou a considerar, a partir de 2015, a possibilidade de os canéforas atingirem padrões de qualidade compatíveis com o segmento de especiais. A evolução técnica observada desde então abriu espaço para uma avaliação estruturada desses cafés.
Concurso busca reconhecer novos cafés especiais
A iniciativa ganhou uma nova etapa com o The Best of Canephora Brazil 2026, concurso criado para selecionar as melhores amostras brasileiras da safra 2026/27. Ao todo, 25 finalistas foram selecionados para avançar no processo.
Em novembro, as amostras serão novamente avaliadas, desta vez por juízes internacionais. Os lotes vencedores deverão alcançar 83 pontos ou mais e, posteriormente, serão oferecidos em leilão internacional, estratégia que pretende apresentar os canéforas brasileiros a compradores de outros mercados.
A expectativa da BSCA é que o reconhecimento contribua para ampliar o interesse de cafeterias e outros compradores por robustas e conilons de maior qualidade.
Qualidade avança entre os canéforas
A valorização dos canéforas acompanha transformações ocorridas tanto no Brasil quanto em outros países produtores. Além da evolução das práticas agrícolas e de pós-colheita, a redução da diferença de valor em relação ao arábica aumentou os incentivos para investimentos na qualidade.
Historicamente, o segmento brasileiro de cafés especiais se desenvolveu principalmente em torno do arábica. A espécie representa cerca de 63% da produção nacional estimada para 2025/26 e mantém forte presença nas exportações brasileiras.
Os cafés especiais também alcançam maior valorização comercial. Dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) indicam que, em 2025, esses produtos obtiveram prêmio médio de US$ 76 por saca, aproximadamente 21% acima do preço médio dos cafés convencionais.
A produção brasileira de cafés especiais também avançou nas últimas décadas. Segundo a BSCA, passou de aproximadamente 120 mil sacas em 1999 para 9,5 milhões de sacas em 2025, das quais cerca de 8,5 milhões foram destinadas ao mercado externo.
Critérios vão além do perfil sensorial
O conceito de café especial começou a ganhar estrutura internacional na década de 1970 e passou a contar posteriormente com sistemas padronizados de avaliação. Atualmente, atributos como aroma, sabor, acidez, equilíbrio e características posteriores à degustação integram a análise da qualidade dos grãos.
A classificação também vem incorporando aspectos relacionados à rastreabilidade e às práticas sustentáveis e regenerativas adotadas na produção.
Com a entrada dos canéforas nesse movimento, a BSCA busca ampliar a diversidade da oferta brasileira de cafés de maior valor agregado. O resultado do concurso e a posterior apresentação dos lotes ao mercado internacional deverão indicar o potencial de robustas e conilons brasileiros para conquistar maior espaço no segmento de especiais.

