Correção do perfil do solo favorece o desenvolvimento das raízes e pode elevar a produção de madeira, melhorar o aproveitamento de recursos e antecipar o ciclo florestal
O manejo adequado do solo vem ganhando relevância estratégica na silvicultura brasileira diante da necessidade de elevar a produtividade e a eficiência das florestas comerciais. Em uma cultura de ciclo longo como o eucalipto, as condições estabelecidas durante a implantação podem influenciar o desenvolvimento das árvores durante vários anos.
O Brasil reúne 10,5 milhões de hectares de árvores plantadas, dos quais 8,1 milhões são ocupados pelo eucalipto, segundo dados da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). Nesse cenário, a formação de um sistema radicular capaz de explorar água e nutrientes em diferentes profundidades torna-se determinante para aproveitar o potencial produtivo das áreas.
Maurício Komori, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento de Mercado da Agronelli Soluções e especialista em Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas, destaca que a preparação inicial assume importância ainda maior na produção florestal devido ao tempo de permanência das árvores no campo.
Diferentemente das culturas anuais, nas quais o manejo pode ser revisto a cada safra, limitações estabelecidas no início de uma floresta podem acompanhar praticamente todo o ciclo. Por isso, criar condições favoráveis ao aprofundamento das raízes é uma das estratégias para ampliar o acesso aos recursos disponíveis no solo.
Gesso agrícola apresenta impacto no crescimento
Um experimento realizado com eucalipto em Carbonita (MG) avaliou os efeitos da aplicação de gesso agrícola sobre o crescimento inicial das árvores. Foram comparados três manejos: aplicação em faixa sobre a linha de plantio, aplicação em área total e ausência do insumo.
Aos 12 meses, as plantas cultivadas sem gesso apresentaram volume de madeira de 11,7 m³ por hectare. A aplicação em faixa elevou o resultado para 16,06 m³/ha, crescimento de 37%. Já o tratamento realizado em área total atingiu 19,25 m³/ha, avanço de 65% na comparação com a área sem aplicação.
O estudo também apontou diferenças estatísticas em indicadores de desenvolvimento das árvores, incluindo circunferência e diâmetro à altura do peito.
Um aspecto relevante é que a área experimental já havia recebido 3 toneladas de calcário por hectare. O resultado indica que, mesmo após a calagem, determinadas características químicas das camadas mais profundas podem continuar limitando a expansão das raízes.
Embora os resultados estejam associados às condições específicas do experimento e não devam ser automaticamente extrapolados para outras áreas, eles demonstram o potencial do manejo do perfil do solo para favorecer o estabelecimento das florestas.
Produtividade reforça importância do planejamento
A estratégia ganha dimensão diante da escala da produção brasileira. Em 2024, a idade média considerada para o cálculo da produtividade do eucalipto foi de 6,8 anos. A produtividade média nacional alcançou 34,4 m³ por hectare ao ano, com resultados estaduais variando entre 20 e 41,3 m³/ha/ano, conforme dados da Ibá.
A demanda industrial também permanece elevada. Em 2025, o Brasil produziu 29,4 milhões de toneladas de celulose, volume recorde e 6,9% superior ao registrado no ano anterior.
Nesse contexto, melhorar o desenvolvimento radicular pode contribuir não apenas para o volume produzido, mas também para a eficiência no aproveitamento de água e nutrientes. A possibilidade de alcançar mais rapidamente determinados volumes comerciais de madeira também pode reduzir o tempo necessário para o retorno do investimento.
Manejo deve considerar camadas mais profundas
Para a produção comercial, a avaliação do solo não deve ficar restrita às camadas superficiais. Baixa disponibilidade de cálcio, presença de alumínio em níveis limitantes e outras restrições em profundidade podem dificultar o avanço das raízes e reduzir o acesso à água em períodos críticos.
O gesso agrícola é uma das ferramentas utilizadas para melhorar essas condições, principalmente por fornecer cálcio e enxofre e atuar sobre o ambiente químico de camadas subsuperficiais. A aplicação, entretanto, precisa ser definida a partir de análises de solo e orientação técnica, uma vez que necessidade e dosagem dependem das características de cada área.
Em sistemas florestais que permanecem vários anos no campo, identificar e corrigir limitações antes ou durante a implantação pode evitar que problemas no perfil do solo comprometam o desenvolvimento posterior. Dessa forma, o planejamento do manejo passa a integrar não apenas a estratégia agronômica, mas também a gestão econômica e a eficiência dos investimentos na silvicultura.

