O México autorizou o OIFIRAX, da GreenLight Biosciences, produto apresentado pela companhia como o primeiro biofungicida comercial à base de RNA registrado no mundo. A aprovação representa um avanço da aplicação de tecnologias de RNA na proteção de cultivos, levando uma abordagem até então emergente para o controle de doenças fúngicas à etapa comercial.
A autorização foi concedida pela Comissão Federal para a Proteção contra Riscos Sanitários do México (COFEPRIS) para o controle do oídio da videira, causado pelo fungo Erysiphe necator. A doença pode comprometer folhas, brotos e frutos, afetando a fotossíntese, a qualidade das uvas e a produtividade dos vinhedos.
O processo regulatório também envolveu o Serviço Nacional de Sanidade, Inocuidade e Qualidade Agroalimentar (SENASICA) e a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMARNAT). Segundo as informações divulgadas, o dossiê regulatório completo foi aprovado em aproximadamente nove meses.
A GreenLight afirma que o registro é resultado de mais de dez anos de pesquisa e testes conduzidos no México e em outros mercados.
RNA atua sobre gene específico do fungo
A tecnologia do OIFIRAX utiliza moléculas de RNA de fita dupla (dsRNA) desenvolvidas para bloquear temporariamente um gene essencial ao desenvolvimento do fungo-alvo.
O mecanismo é baseado na especificidade da sequência genética, permitindo interferir no patógeno sem alterar os processos biológicos normais da cultura. A abordagem não modifica o DNA da planta e, portanto, não transforma a cultura em um organismo geneticamente modificado.
A seletividade é um dos principais atributos associados à tecnologia. Como a ação é direcionada a uma sequência genética específica, produtos de proteção de cultivos baseados em RNA apresentam potencial para reduzir a exposição de organismos não alvo, como abelhas, borboletas e microrganismos benéficos presentes no solo.
As moléculas de RNA também são naturalmente degradadas por enzimas, radiação e processos presentes no solo e na água, característica que pode contribuir para reduzir sua permanência no ambiente em comparação com determinados defensivos convencionais.
Apesar dessas características, o OIFIRAX deverá integrar programas de manejo de doenças, e não atuar como ferramenta isolada. Sua utilização deverá seguir as condições estabelecidas no registro, incluindo doses, intervalos de aplicação e culturas autorizadas.
Manejo de resistência permanece como desafio
A elevada especificidade do mecanismo não elimina a necessidade de estratégias para prevenir o desenvolvimento de resistência.
A utilização repetida de uma tecnologia direcionada ao mesmo gene essencial pode exercer pressão de seleção sobre populações do fungo, favorecendo eventualmente indivíduos com variações genéticas capazes de reduzir a sensibilidade ao tratamento.
Outro ponto de acompanhamento será a avaliação contínua da similaridade entre a sequência genética escolhida como alvo e genes encontrados em organismos não alvo.
Com a entrada do produto no mercado, sua utilização em escala comercial deverá ampliar a geração de dados sobre desempenho agronômico, comportamento ambiental e perfil de resistência dos fungos às tecnologias baseadas em RNA.
Nova aplicação do RNA na proteção de cultivos
A chegada do OIFIRAX amplia as possibilidades comerciais do RNA no setor agrícola. A tecnologia já havia alcançado o mercado de proteção de cultivos por meio de produtos destinados ao controle de insetos, como o Calantha, registrado nos Estados Unidos para o manejo do besouro-da-batata-do-Colorado.
O diferencial do novo produto está na aplicação do mecanismo contra um patógeno fúngico. Com isso, o registro mexicano estabelece um novo precedente para o desenvolvimento de ferramentas de proteção baseadas em sequências genéticas específicas.
O avanço ocorre em um momento no qual fabricantes de insumos agrícolas buscam abordagens biológicas e de maior precisão como complemento às tecnologias convencionais de proteção de cultivos.
Além do desenvolvimento regulatório, a GreenLight pretende ampliar sua estrutura produtiva no país. A companhia planeja investir entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões em uma unidade de produção na Cidade do México, com expectativa de gerar mais de 500 empregos especializados.
A iniciativa poderá estabelecer capacidade local para fabricação de tecnologias agrícolas baseadas em RNA justamente no momento em que essa plataforma começa a avançar da pesquisa e dos processos regulatórios para uma aplicação comercial mais ampla.
Por se tratar de uma tecnologia ainda emergente, aspectos como desempenho de longo prazo, evolução da resistência e comportamento ambiental continuarão sendo acompanhados à medida que o uso comercial se expanda.
A autorização mexicana, entretanto, representa uma etapa relevante para a indústria de proteção de cultivos ao levar um biofungicida baseado em RNA ao mercado e ampliar as possibilidades de aplicação dessa tecnologia no manejo de doenças agrícolas.

