Pesquisa com 72 bacteriófagos destaca potencial do P27 contra Xanthomonas citri e desafios para formulações agrícolas.
Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros e internacionais avaliou o potencial de bacteriófagos como ferramenta de biocontrole de Xanthomonas citri, bactéria associada ao cancro cítrico. Entre os 72 vírus analisados, o P27 apresentou resultados que levaram os pesquisadores a considerá-lo candidato para estudos voltados ao desenvolvimento de futuras formulações agrícolas.
A pesquisa reuniu equipes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Metropolitana de Manchester, Universidade da Flórida e Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus). Dos 72 bacteriófagos estudados, 65 eram isolados ainda não caracterizados, coletados em folhas provenientes de 12 pomares do Estado de São Paulo entre 2018 e 2021.
Avaliação da ação contra a bactéria
Bacteriófagos são vírus capazes de infectar bactérias específicas. Após reconhecer a célula hospedeira, eles se multiplicam em seu interior e podem provocar sua lise. Essa seletividade tem despertado interesse para aplicações em biocontrole por possibilitar uma atuação direcionada ao organismo-alvo.
No estudo, os 72 fagos foram testados contra 122 linhagens de Xanthomonas citri. Cem delas mostraram suscetibilidade à lise causada por todos os bacteriófagos avaliados, enquanto 21 apresentaram resistência completa. Uma linhagem teve comportamento variável de acordo com o vírus utilizado.
A análise genômica mostrou que 70 dos isolados compartilhavam aproximadamente 95% de similaridade de DNA e apresentavam proximidade genética com o bacteriófago CP2, anteriormente descrito no Japão. O trabalho também identificou diferentes assinaturas e perfis genômicos entre os organismos analisados.
Entre os candidatos avaliados em maior profundidade, o P27 apresentou um ciclo de infecção caracterizado pelos pesquisadores. Cerca de metade das partículas virais aderiu às células bacterianas em dez minutos, enquanto, após 30 minutos, a maior parte encontrava-se adsorvida.
Estabilidade é desafio para futuras formulações
Os pesquisadores também analisaram fatores relevantes para uma eventual aplicação agrícola. Testes realizados com quatro bacteriófagos — CP1, CP2, XacP77 e P27 — indicaram sobrevivência superior a 70% entre pH 4 e pH 11, com melhor desempenho na faixa entre pH 7,4 e pH 9.
A radiação ultravioleta, entretanto, apresentou-se como uma das principais limitações. Nas condições experimentais, a exposição reduziu progressivamente a viabilidade dos vírus e provocou inativação completa após 160 segundos.
Diante desse resultado, uma das próximas etapas previstas pela equipe é o desenvolvimento de formulações capazes de proteger os bacteriófagos na superfície das folhas. Também estão previstos estudos com substâncias naturais destinadas a dificultar o desenvolvimento de resistência bacteriana.
P27 é testado em laranjeiras
Em ensaio realizado em casa de vegetação, mudas de laranjeira da cultivar Pera receberam o P27 antes da inoculação de uma linhagem suscetível de Xanthomonas citri. Outro grupo recebeu oxicloreto de cobre, enquanto plantas de controle foram tratadas com solução tampão.
Após 45 dias, o grupo tratado com P27 apresentou redução de 60% na formação de lesões em comparação ao controle sem tratamento. Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que a diferença entre P27 e controle não atingiu o limite convencional de significância estatística nas comparações realizadas após os ajustes. Já o tratamento com oxicloreto de cobre apresentou redução estatisticamente significativa.
Os resultados, portanto, são tratados como preliminares e provenientes de condições controladas de casa de vegetação, sem comprovação de eficácia em campo até o momento.
Além dos ensaios de biocontrole, análises genômicas identificaram proteínas que podem estar relacionadas à degradação da goma xantana presente na cápsula bacteriana. Segundo os pesquisadores, esse possível mecanismo poderia favorecer o acesso do bacteriófago à superfície da bactéria, mas a função permanece como hipótese a ser investigada.
A equipe considera que os dados justificam novas pesquisas com o P27, incluindo o desenvolvimento de formulações e estudos sobre sua possível integração a estratégias de manejo. Entre as possibilidades avaliadas está a combinação de bacteriófagos com concentrações menores de cobre, abordagem que ainda precisará ser validada em novos experimentos.

