Modelo combina cacau com outras culturas para diversificar a produção e ampliar as fontes de renda de agricultores familiares.
A adoção de sistemas agroflorestais vem abrindo novas possibilidades para a produção de cacau no Brasil. Ao integrar diferentes espécies vegetais em uma mesma área, o modelo permite diversificar a atividade agrícola e reduzir a dependência econômica de uma única cultura, ao mesmo tempo em que incorpora práticas associadas à conservação ambiental.
O movimento ocorre em um setor que passou por profundas transformações nas últimas décadas. A produção brasileira de cacau enfrentou uma forte retração após a disseminação da vassoura-de-bruxa no sul da Bahia, episódio que provocou perdas estimadas em 80% da produção nacional naquele período.
Atualmente, iniciativas envolvendo produtores, empresas e instituições buscam fortalecer a cadeia e desenvolver modelos produtivos capazes de ampliar sua sustentabilidade econômica e ambiental.
Agricultura familiar sustenta parte relevante da produção
Com uma trajetória de mais de três séculos no Brasil, o cacau está concentrado principalmente nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para Bahia e Pará.
Dados do Censo Agropecuário do IBGE indicam aproximadamente 93 mil produtores da cultura no país, sendo grande parte formada por agricultores familiares. As propriedades apresentam, em média, áreas entre 5 e 10 hectares.
No Pará, produtores vêm incorporando conhecimentos relacionados a irrigação, nutrição vegetal e manejo para aumentar a produtividade e estabelecer o cacau como fonte de renda de longo prazo. A cultura apresenta, ainda, um ciclo produtivo extenso, já que os cacaueiros podem permanecer produtivos por várias décadas.
Sistemas agroflorestais diversificam as propriedades
Uma das estratégias utilizadas é a adoção dos Sistemas Agroflorestais (SAFs), que combinam espécies agrícolas e árvores dentro da mesma área produtiva.
Como o cacaueiro apresenta tolerância ao sombreamento, a cultura pode ser integrada a outras espécies. Em propriedades que adotam esse sistema, o cacau divide espaço com frutas e outros cultivos, criando diferentes possibilidades de comercialização.
Entre as culturas encontradas nesses sistemas estão pitaya, limão, açaí e cupuaçu. Parte da produção pode ser destinada ao consumo dentro das propriedades, enquanto o excedente encontra oportunidades de comercialização nos mercados locais.
Diversificação busca reduzir exposição às oscilações do mercado
A combinação de diferentes culturas também representa uma estratégia econômica para os agricultores familiares. Ao gerar mais de uma fonte de receita dentro da propriedade, o sistema reduz a dependência exclusiva do cacau e pode diminuir a exposição às oscilações de preços agrícolas.
A abordagem também se aproxima dos princípios da bioeconomia ao incorporar a biodiversidade ao modelo produtivo e buscar conciliar geração de renda e conservação dos recursos naturais.
Nesse cenário, os sistemas agroflorestais passam a integrar as estratégias de recuperação e desenvolvimento da cadeia brasileira do cacau, associando diversificação produtiva, agricultura familiar e uso mais sustentável das áreas agrícolas.

