Tecnologia baseada em RNA de interferência reduz infecção por Botrytis cinerea e apresenta resultados comparáveis a fungicida
Pesquisadores da Qingdao Agricultural University avançaram no desenvolvimento de uma estratégia biotecnológica para o controle do mofo-cinzento em tomates. O estudo utiliza uma linhagem geneticamente modificada do fungo Beauveria bassiana para produzir RNA de dupla fita capaz de interferir em um gene associado ao desenvolvimento e à capacidade de infecção de Botrytis cinerea.
Responsável pelo mofo-cinzento, B. cinerea é um patógeno que pode comprometer diferentes culturas agrícolas. Nos experimentos conduzidos pela equipe, a nova abordagem reduziu significativamente a progressão da doença e apresentou, em plantas cultivadas em vasos e em condições de casa de vegetação, resultados próximos aos obtidos com o fungicida boscalida.
Para desenvolver a tecnologia, os cientistas utilizaram a linhagem QSE-F1 de Beauveria bassiana, originalmente isolada de tomate e com capacidade de colonizar as folhas depois da pulverização. O microrganismo foi modificado para produzir RNA de dupla fita direcionado ao gene BcMucin, relacionado ao crescimento e à patogenicidade de B. cinerea.
Os testes demonstraram a importância desse alvo molecular. A retirada do gene BcMucin prejudicou o crescimento micelial do patógeno e impediu o surgimento de sintomas visíveis em folhas destacadas. Já a aplicação externa do RNA específico reduziu em mais de 85% a expressão do gene e diminuiu aproximadamente 65% da área das lesões.
Tecnologia utiliza vesículas para liberação de RNA
Batizada de Bb-dsMucin, a linhagem modificada de Beauveria bassiana conseguiu liberar o RNA de interferência por meio de vesículas extracelulares. O caldo obtido durante a fermentação também demonstrou capacidade de reduzir a germinação dos conídios de B. cinerea. Quando utilizado na concentração de 50%, o índice de germinação ficou abaixo de 1%.
O desempenho também foi expressivo nos ensaios realizados em folhas destacadas, nos quais o tratamento proporcionou redução de aproximadamente 95% das lesões.
Segundo o estudo, os melhores resultados foram observados com a utilização do caldo fermentado completo, que reúne conídios e metabólitos produzidos pelo fungo. Quatro dias de fermentação apresentaram a combinação mais favorável entre atividade antifúngica e concentração do agente biológico, chegando a cerca de 32 milhões de unidades formadoras de colônia por mililitro.
Proteção permanece por até sete dias
Os pesquisadores também avaliaram a duração do efeito protetor em plantas de tomate. A ação permaneceu detectável durante sete dias após o tratamento. No quinto e no sétimo dias, a supressão da doença ainda ficou entre 75% e 85%.
Em condições de casa de vegetação, duas aplicações realizadas com intervalo de 14 dias alcançaram nível de controle comparável ao tratamento com boscalida na concentração de 10 miligramas por litro.
Os resultados colocam a combinação entre controle biológico e RNA de interferência entre as abordagens de interesse para o desenvolvimento de novas tecnologias de proteção vegetal. A estratégia também evidencia como ferramentas de biotecnologia podem ampliar as possibilidades de manejo de doenças ao atuar diretamente sobre mecanismos moleculares essenciais à capacidade de infecção dos patógenos.

